“Em torno do acervo” – inauguração do Atelier-Museu Júlio Pomar – 05.04.2013

“Em torno do Acervo” – Curadoria: Sara Antónia Matos – Atelier-Museu Júlio Pomar – 05.04.2013 – 29.9.2013

“A exposição de abertura do Atelier-Museu revela parte do acervo que a Fundação Júlio Pomar deposita neste museu municipal e procura sinalizar alguns dos períodos mais relevantes da obra do artista. Além de obras pertencentes ao depósito, a exposição inaugural engloba outras emprestadas por instituições de relevo e colecções onde o artista está representado, que se consideram fundamentais no percurso do autor.

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Considerando cada pintura como parte integrante do conjunto que forma a obra no seu todo, o critério expositivo adoptado para a primeira mostra do acervo não segue a ordem cronológica de montagem das obras no espaço. A exposição configura-se em quatro núcleos principais que permitem revisitar o percurso do artista em diferentes fases de produção, desafiando o espectador a descobrir as relações entre as obras, entre as diferentes linguagens adoptadas e a reflectir sobre as questões que nelas se colocam.

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Um núcleo é dedicado às décadas de 80 e 90, com as quais o artista efectiva um regresso à pintura depois de ter explorado outros meios plásticos, desenvolvendo uma linguagem pictórica onde a cor e o gesto expressionista encontram o seu expoente máximo.

Kuarup IV 1989 195 x 130 cm
Kuarup IV 1989,. 195 x 130 cm

 

É disso exemplo a série que dedica aos índios da Amazónia, na região do Alto Xingú, após uma estadia em que o pintor acompanha a rodagem do filme “Kuarup”, de Ruy Guerra. O contacto com essa comunidade é uma experiência que transformará a génese do olhar do pintor, isto é, o modo como daí em diante passará a olhar a realidade, transpondo-a para as suas pinturas. Através destas, representando o modo livre como os índios se movimentam, se banham, se entrelaçam, sem atender aos constrangimentos de ordem social, o artista ensaia diferentes relações entre os corpos e o espaço circundante. Da vivência temporária naquela comunidade terá apreendido, acima de tudo, que o acto de ver ultrapassa a imediatez da imagem, que esta se compõe de múltiplas espessuras e camadas, sendo necessário manter o olhar liberto de formatações e preconceitos instalados.

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Mascarados de Pirenópolis,  1987

Deste período, encontram-se também algumas obras da série “Mascarados de Pirenópolis” uma festa de manifestações profanas e religiosas, que o pintor observa nas festas do Divino Espírito Santo, na cidade de Pirenópolis, no Brasil. Nessas festas, consagram-se ritos ancestrais que englobam uma dimensão mítica, festiva e ritualista dahumanidade. Durante o ritual, o mascarado típico veste-se com roupas feitas daquilo que encontra, muitas vezes de cor intensa, adornadas com flores de papel. Usa ainda uma máscara alusiva ao boi, à onça ou ao diabo, através das quais alude aos sacrifícios e à morte. Figuras simpaticamente estranhas e assustadoras, os “Mascarados de Pirenópolis” assumem no Atelier-Museu um carácter quase xamânico. Elas são, de facto, as guardiãs do espaço.

Num âmbito simultaneamente irreal e antropomórfico, a sua pintura passa a explorar um campo de associações inesperadas, onde elementos díspares – animais e seres humanos, objectos e máscaras, formas e cores – se conjugam hibridamente na superfície do quadro, aparecendo e desaparecendo dela, voltando a emergir, ligando-se e recusando qualquer lógica pré-estipulada. Deste então até aos dias de hoje, a superfície da tela, assumindo-se como um ecrã da memória, dá a ver signos ambíguos que remetem para outros não visíveis, potenciando um campo de associações fecundo e que recusa qualquer enquadramento estilístico.

Outro núcleo da exposição debruça-se sobre o período que ocupou a década de 60 e onde se opera uma autonomia da pintura enquanto meio de expressão. Embora nestas obras se possam reconhecer temáticas referentes às corridas de touros ou cavalos, não pode dizer-se que esse seja o seu tema central. Neste período, o artista enveredou por uma linguagem gestual cujo principal objecto de exploração é o movimento em si mesmo. O núcleo é complementado por desenhos e algumas gravuras que mostram como os princípios propostos pela disciplina da pintura reaparecem e são explorados através de outros meios plásticos.

Um recuo no tempo permite revisitar a pintura do período neo-realista das décadas de 40 e 50, expressão que se queria próxima da realidade social, politicamente empenhada e sobretudo legível pelo observador. Empenhado num exame atento da realidade, Júlio Pomar não admite, contudo, reduzir a sua prática artística a uma interpretação legível. Caracterizada por tons escuros e traço curvilíneo, sinuoso, a linguagem pictórica deixa entrever figuras entre figuras, como é patente na obra “Resistência”, ou assume uma rigidez formal que confere às formas o aspecto de máscaras ou sólidos geométricos, tal como em “Azenhas do Mar”. Capaz de comunicar por via metafórica aquilo que não pode ser dito de forma explícita, a pintura de Júlio Pomar correspondente a este período não passa indelével no contexto político de então, não pode ser esquecida na génese da sua obra e, como tal, não pode deixar de estar presente neste Atelier-Museu, cujo lugar simboliza a origem da actividade artística.

Resistência, 1946
Le Luxe, 1979

Um último núcleo permite encontrar obras representativas de um dos períodos mais audazes do percurso de Júlio Pomar, senão mesmo aquele que determinaria definitivamente a sua linguagem plástica: a colagem e a assemblage. Complexo de apreender pela pluralidade de referências que aí concorrem, é no universo da colagem que o artista equaciona o seu trabalho de forma mais radical. A colagem, iniciada por Braque e Picasso no início do século XX, ganha aqui uma amplitude livre e audaciosa. Além de um questionamento sobre a realidade do quadro, que agora agrega em si pedaços do real quotidiano (recortes de papel, cartões, tecidos e outros objectos), o suporte de expressão é o lugar para projectar as várias dimensões do corpo. Camada sobre camada, como pele sobre pele, o artista dá a ver ao espectador que a obra é o lugar do corpo e, portanto, o lugar do sentir, das suas relações e dos seus enredos eróticos, algo corporizado, por exemplo, em “La table de l´architecte” (1977).

La table de l’architecte, 1977, 100x100cm

A ideia de junção e conjugação presente em tais colagens, é patente também nos três desenhos em exposição, cujo título “Étreinte” (1979) reforça quer o entrelaçamento entre os corpos quer a sua possibilidade de encaixe. Neste âmbito, não é estranho o surgimento de colagens onde o corpo humano se funde e confunde com o mundo animal dos felinos. O corpo é o lugar do sentir, e nele não há refreio que condicione o desejo. Só com ele, através dele, o mundo pode revelar-se na sua integridade.”

[Sara Antónia Matos]

Fotos de Luisa Ferreira / AMJP

serigras
duas serigrafias editadas pela Fundação ao tempo da inauguração do Atelier-Museu: “Burro a tocar Guitarra” e ” Burro a tocar Guitarra (Ó fartar vilanagem)” (disponíveis para compra)

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Antes da inauguração

 

2010_08_05
O arq. Álvaro Siza acompanhando a obra no estaleiro. 05.08.2010
agenda cultural
O Museu anunciado na Agenda Cultural de Lisboa

 

                                                                                                                       

 

 

2 pensamentos sobre ““Em torno do acervo” – inauguração do Atelier-Museu Júlio Pomar – 05.04.2013

  1. I have a painting of Julio Pomar . We stayed as his flat in Paris and our painting was in Lissabon and Porto for an exibition.
    I would like to say something to Julio.
    Does he have a mail?
    Thank you
    Hedwige van Odijk

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