Será curioso identificar o quadro da colecção Millennium, à esquerda, como uma variante da tela homónima que fez parte da série “As 7 histórias portuguesas”, pintada “expressamente” para ser reproduzida como “ilustrações” de uma edição da Mensagem que se publicou em 1985, com um prefácio de Mário Dionísio intitulado “Os avessos dos mitos”, sob a chancela da Clássica editora. Foi por ocasião dos 50 anos da morte de Fernando Pessoa e quando os seus direitos de autor cairam por um breve período no domínio público, tendo a série sido exposta na Galeria 111, em Dezembro de 1985, em “Raptos de Europa e 7 Histórias Portuguesas”.


O quadro da colecção Millennium está datado de 1984-85, e o que se reproduz à direita tem data de 1985, o que não é exactamente indicativo de qual foi o primeiro a ser dado por concluído. As datas são muitas vezes um acaso de memória ou têm a ver com momentos de exposição ou de venda.

De qualquer modo, a série das histórias portuguesas sucede-se aos anos de predomínio das temáticas literárias desencadeado por duas encomendas praticamente simultâneas: as “ilustrações” e retratos da série dedicada ao poema O Corvo de E.A. Poe e aos seus tradutores (Baudelaire, Mallarmé e Pessoa – os 1ºs Corvos são de 1981, a par dos últimos Tigres, os 1ºs retratos são de 1982, Poe, Baudelaire e Pessoa), os últimos de 1985 – edição em livro em 1985), e os azulejos para o Metropolitano de Lisboa (Alto dos Moinhos), preenchidos com desenhos relacionados com 4 poetas de Lisboa, Camões, Bocage, Almada e Pessoa (1983-84, exposição de 200 desenhos e “um ano de desenho” no CAM em 1984). Como se nota, F. Pessoa está no centro dessas séries e regressa com o projecto em torno da Mensagem.

 

 

Se os temas literários vêm de muito antes (do início da obra, com as encomendas de capas e ilustrações para livros – e D. Quixote começa em 1957-59), acontece em 1984 a inclusão dos assuntos mitológicos no campo da relação com a literatura: é o caso da aparição de Salomé, da Leda e do Rapto de Europa, o Julgamento de Páris, Acteon na série de quadros elípticos expostos nesse ano na Galerie Bellechasse em Paris (Ellipses). 

Fazem parte das “7 histórias portuguesas”, uma série de grande ambição que se destaca na obra do artista, e em que é possível falar de Pintura de História – o género mais elevado na categorização clássica – , além do “Santo António Prega aos Peixes”, 195×130 cm, 1985, col. Pinto da Fonseca, exposto na Gal.111 em 1985 e no CCB em 2004 (cat. “A Comédia Humana”, CCB, nº 15) – a confrontar com a tela da Col. Millennium com as mesmas dimensões, dat. 1984-85 e exposto certamente pela primeira vez em 2004, no Sintra Museu – Colecção Berardo (“Pomar – Autobiografia” nº 149, com o título “Santo António a Pregar aos Peixes”), as seguintes telas: 

– “Retrato de D. Sebastião com um espelho” (116×81 cm, col. part.);
– “Retrato de Camões na prisão de Goa, escrevendo com a mão esquerda” (116x81cm, col. part; tb exposto no CCB 2004) – de que existe uma outra versão mais tardia “Camões”, 1988-89 (195×130 cm, col. MC no CCB);
– “Presentes de D. Manuel ao Papa” (col. part., exposto em 2004 no CCB),
– “As Peregrinações de Fernão Mendes Pinto” (Col. Manuel de Brito, exp. CCB 2004),
– “Lusitânia no Bairro Latino…” (Col. FG/CAM; exp. Sintra 2004) e
– “Fernando Pessoa encontra D. Sebastião…” (Col. CGD, exp. Sintra 2004).

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