Bibliografia / Filmografia

TEXTOS DE JÚLIO POMAR

2014

CATCH: TEMA E VARIAÇÕES.  Edição F.J.P.

Comprometi-me a fabricar meia dúzia de linhas com o fito de explicar os porquês desta apresentação tardia de Catch, série de litografias que registam a quase totalidade dos estudos resultantes da minha frequentação deste espectáculo popular. A arrumação em série cedo se tornaria um hábito meu, como a melhor maneira de pôr em prática as tentações, intuições ou obstinações que o próprio trabalho vai ajudando a definir.
Assim aconteceu com as Tauromaquias e as “Courses”, estas realizadas já integralmente em Paris, onde, no ano de 1963, eu me havia fixado. Contrariamente às Tauromaquias que compreendiam tanto pinturas a óleo como as gravuras a agua-forte realizadas nas oficinas da Cooperativa Gravura, esta série do Catch ficaria reduzida a uns quantos desenhos, dado que as pinturas paralelamente realizadas foram por mim destruídas na sua quase totalidade; salvar-se-iam ( salvo erro ) duas! – uma, a inicial, a outra realizada após a série de desenhos ter sido dada por terminada.
Dos desenhos se tiraria este conjunto de litografias, por iniciativa do meu amigo Joaquim Vital, infelizmente já desaparecido. Tão português como eu, um homem das Arábias que se fixara em Paris e, através das suas Éditions de la Différence, se multiplicava em iniciativas audazes, como a publicação da Peregrinação, de romances de Eça de Queiroz e de poesias de Herberto Helder, de Sophia de Mello Breyner ou de Vasco Graça Moura, estes dois exemplarmente traduzidas por ele próprio. Outras iniciativas suas ficavam involuntariamente à espera de melhores dias e tal foi o caso de “Catch, série de 34 dessins au crayon et encre de Chine exécutées à Paris en 1965; ils furent inspirés à Pomar par le spectacle de combats organisés à l’époque Salle Wagram. Une édition de grand luxe de Catch vient de paraître à la Différence”.
Afirmação prematura que se pode ler na revista “Discordance” da qual sairia apenas um número. Em 1984 as Éditions de la Différence publicavam o meu Discours sur la cécité du peintre e Catch: Théme et Variations, volume que reproduz a série assim chamada acompanhado dum texto do autor “dont le thème est le dessin, et ce dessin je le vois avant tout comme l’écoute du trait.” Este pequeno volume deveria anunciar e promover a edição da série completa litografada em seu tamanho real ; mas mais uma vez isso não aconteceu e é somente agora que o conjunto integral se apresenta.

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A minha série dos touros nascera num domingo de Lisboa, em que o acaso me fez passar à porta da praça do Campo Pequeno. Nesse tempo as corridas de touros eram ainda nas tardes de domingo e o sol das touradas não fora substituído pela luz eléctrica das noites de semana.
Aí por volta dos meus 8 anos, faço as contas de cabeça e por pouco me devo enganar, pela mão do meu tio Simões descobri o teatro dos touros e foi essa recordação que muitos anos volvidos me levou à procura de sensações semelhantes; e mais tarde, às esperas e às tentas.
Quando no início dos anos sessenta me instalei em Paris, quis a sorte que eu alugasse um estúdio na Rua Molitor; consultando um dicionário vim a saber que Molitor tinha sido o nome do primeiro tradutor francês de Marx e igualmente o dum general (não me lembro já se do tempo de Napoleão ou não), a inscrição na rua não dizia de qual dos dois se tratava. Vim a saber também que aqui havia vivido Bonnard! A dois passos era o hipódromo de Auteuil.
Corria o ano da minha exposição das “Tauromachies” na Galerie Lacloche, uma das últimas senão a última das galerias de arte a abandonar a Place Vendôme. A exposição estava há mais de dois anos apalavrada e eu a adiá-la. No estio que lhe sucedeu não vim a Portugal e num domingo desocupado (os domingos de Paris, meu pobre Mario de Sá Carneiro !) deu-me a curiosidade de ver o que se passava por detrás das grades em matéria de corridas.
Nenhuma semelhança com os rituais da Tauromagia (a invenção da palavra é do Alberto de Lacerda, que assim deu o título a um livrinho que juntava a poemas seus alguns desenhos meus). Visto de face o tropel dos jockeys e de suas montadas tão depressa aparece como irá desaparecer, a imagem de homens e animais a formar-se quase instantaneamente e quase instantaneamente a desfazer se. Dir-se-ia agredir o olhar que a quer reter ; e ela a frustá-lo, fundindo-se na distância.
Mas das tribunas a visão será outra: aí o espectador já pode desarticular o tropel, separar os participantes, avalisar hierarquias, destrinçar a diferença das velocidades. É a óptica do apostador que do tropel isola um detalhe apenas, o cavalo em que apostou. O que não é evidentemente o meu caso: aquilo a que eu serei sensível será a magia que opera a assunção visual da massa num tropel que indistintamente funde cavalos e cavaleiros: como se de uma só matéria se tratasse ou dum monstro de mil patas.
*

A tourada e a corrida de cavalos são espectáculos que vivem de uma competição real que envolve tanto o homem como o animal. Nada de semelhante no Catch onde tudo é fingimento, simulação, teatro e um teatro boçal que se apropria das imagens brutais duma luta para despertar os instintos do público; é o fingimento que fustiga a necessidade de acreditar na realidade das forças que se apregoando como antagónicas farão vibrar o espectador. Remete-se o leitor para o claríssimo e histórico livro de Roland Barthes sobre as mitologias que operam no quotidiano.

…… E em complemento de informação e dado que a invenção me falha, ouso lembrar ao leitor como terminava um artigo meu em tempos publicado na revista “Colóquio” sobre possíveis afinidades entre dois criadores da minha particular afeição, Alberto Giacometti e Jean Genet: “só o teatro é real”.
14/7/2014

2003 Redol


ENTREVISTAS

2017, “Sou um bocado canibal”, entrevista de Alexandra Carita, março (repub. a 22.05.2018) , Expresso, 2017-18

2016, “Sou uma criatura volúvel” (título?), entrevista de Marco Alves e Ágata Xavier, Sábado 8 janeiro

2014, “Gostava que o Burro desse uma valente parelha de coices…”, entrevista de José António Santos, na revista da Associação 25 de Abril:  O Referencial. Setembro 2014

2013, entrevista de António José Teixeira, SIC, 19.05.2013 VIDEO: A Propósito

2012, entrevista de Anabela Mota Ribeiro, “Júlio Pomar e Mário Soares” – Publico > Blog

2008, entrevista de Paula Brito Medori, “Represento o movimento”, L+ Artes nº 47, Abril de 2008, pag. 50-52: L+Arte

2005, entrevista de Raquel Santos (sobre exp. no Museu Berardo de Sintra e no CCB), VIDEO 25 min., RTP Parte I

2004, entrevista de Eduardo Batarda: “As minhas dúvidas são o meu material mais precioso”, in UPorto – Revista dos antigos alunos da Universidade do Porto, nº 12, Junho Eduardo Batarda

2004, entrevista de Anabela Mota Ribeiro, por ocasião da exp. «A Comédia Humana» no CCB: Diário de Notícias, Setembro

2004, entrevista por Joana Vasconcelos e Sara Maia, Jornal de Letras 26 de Maio Jornal de Letras

2001, entrevista de Ana Sousa Dias, programa “Por outro lado”, da RTP2, real. Rui Nunes. 2001- – VIDEO – 54,12 min.  RTP2, 2001

1966, entrevista de Mário Dionísio, “Reencontro com Pomar”, Diário de Lisboa: RI-DA-2-doc43


SOBRE JÚLIO POMAR

DIONÍSIO, Mário, 1978, “Todo o Pomar” (Fund. Gulbenkian, Retrospectiva) – Diário de Lisboa 25 Julho 1978

DIONÍSIO, Mário, 1945, “O princípio de um grande pintor?” (Exp. do Atelier da Rua das Flores, 1942 – Exp. da Missão Estética de Férias, SNBA, 1945) – Seara Nova, nº 956, 8 de Dezembro, p. 232-234

MUNIER, Roger, 1978, L’Espace d’Eros / O Espaço de Eros – Différence, Bruxelles

POMAR, Alexandre, 2004, “Júlio Pomar” (O Neo-realismo e depois 1942-1958) – Catálogo “Raisonné” vol. I  

POMAR, Alexandre, 2004, “Júlio Pomar” (Le néorealisme et après 1942-1958) – Catalogue Raisonée I

POMAR, Alexandre, 2002,”60 anos depois” (Rua das Flores, 1942), 9 Nov. – Expresso

PORFÍRIO, José Luís, 2018, “Júlio Pomar” Expresso, 30.05


FILMOGRAFIA

2006, “JÚLIO POMAR – O RISCO”, Realização de António José de Almeida. 59′ https://arquivos.rtp.pt Documentário

2004, “Júlio Pomar – Visita ao Atelier”, real. Vitor Pomar, 15,25 min.: Julio Atelier

1989, “Pomar 88”, produção e realização  Tereza Marta. Entrevista de Helena Vaz da Silva

 

1974, 10 de Junho, Pintura Colectiva, Galeria de Arte Moderna, Belém CineArmaVideo