Edição & Utopia — Obra gráfica – Atelier-Museu – 24.10.2014

Mulheres Fugindo, 1951

“Edição & Utopia — Obra gráfica de Júlio Pomar” – Curadoria de Sara Antónia Matos – Atelier-Museu Júlio Pomar – 24.10.2014 / 08.03.2015

Fotografia de António Jorge Silva, AMJP

“O que leva um artista a fazer edições e tiragens de múltiplos de uma mesma imagem? A exposição “Edição e Utopia – Obra gráfica de Júlio Pomar” procura levantar um conjunto de questões relacionadas com as práticas da gravura, da serigrafia e, lato senso, das formas de reprodução de imagens. O que motiva, em diferentes momentos, o recurso a técnicas que permitem uma multiplicação de imagens? Com que fim?

Menina e Pombas, 1951
Menina e Pombas, 1951

As práticas da gravação, as edições mais ou menos especiais, as tiragens mais ou menos limitadas, transportam uma espécie de contradição: a difusão e circulação alargada da imagem da obra de arte, cuja natureza singular e irrepetível a torna restrita a um universo especializado – paradoxo que em si mesmo releva uma utopia.

Dividida em diferentes núcleos, a exposição dá a conhecer a produção em gravura de Júlio Pomar na década de 50, os desenhos / ilustrações que o artista fez para “Guerra e Paz”, de Tolstoi, e para “O Romance de Camilo”, de Aquilino Ribeiro, algumas caixas com serigrafias onde é dada especial atenção às tiragens limitadas, numeradas e assinadas pelo artista, e ainda reproduções em serigrafia, onde se encontram as séries dos «nus recortados», técnica em que o pintor parece aproximar-se mais explicitamente das metodologias gráficas.

Mulher do Mar, 1956

 

Fotografia de António Jorge Silva, AMJP

Em cada núcleo da exposição, além de se mostrarem as formas multiplicadas ou replicadas, apresentam-se ao público pinturas, desenhos, estudos, provas, chapas e outros suportes que permitem entender a contaminação entre os meios plásticos, o pensamento do pintor, e dar conta do circuito complexo envolvido no processo criativo de Júlio Pomar.” (AMJP)

Elefante, 1952, linóleo
Elefante, matriz, 1952

Papagaio e Macaco (Grande Fabulário de Portugal e Brasil, ed. Folio), 1962

Click to access Edicao_e_Utopia-Obra_grafica_de_Julio_Pomar.pdf

 

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Sobre estampas, original e múltiplo

Uma gravura e uma fotografia, impressas a partir de uma matriz ou de um negativo ou ficheiro digital, são originais (e podem ser ou não ser múltiplos, se forem ou não forem multiplicados – mas o seu destino esperado é, de facto a multiplicação): são considerados originais a gravura/estampa, no caso da edição limitada, numerada e assinada pelo autor, que em princípio imprimiu ou acompanhou a tiragem ou aprovou uma impressão certa a multiplicar (o “bom à tirer”); e também a fotografia no caso das provas vintage e de trabalho, e das provas de autor cuja impressão ele autorizou e assinou (ou não assinou).

Com a gravura e a fotografia não há – ou há raramente – lugar para o fetichismo do exemplar único, e o número de provas é uma convenção tardiamente regulamentada que importa apenas ao mercado (e ao coleccionador) – para além da eventual questão do desgaste material da matriz no caso da gravura).
 
A pintura e o desenho multiplicavam-se (e multiplicam-se) através da cópia manual – que foi durante muito tempo socialmente aceite pelos coleccionadores, as cortes e academias, e pode ser ainda hoje uma forma de aprendizagem (o falso é outra coisa, uma variedade não autorizada da cópia).
A gravura de reprodução foi depois, ao longo de séculos e até ao século XIX, a grande fórmula de circulação de informação visual sobre as obras de arte (pintura, desenhos e gravuras) antes da invenção da reprodução fotográfica, a preto e branco, depois a cores. A gravura de autor é outra coisa e tem a sua história própria – aliás, as suas histórias próprias para cada uma das grandes espécies de gravação (em pedra litográfica, em madeira e metal) e de impressão-tiragem (em geral em papel).

A gravura e a fotografia são processos de criação em que a possibilidade de multiplicar faz parte da sua especificidade técnica e processual e da sua originalidade, da sua condição ou natureza, se se quiser. A gravura e a fotografia são formas de criação de imagens originais, antes de serem formas de multiplicação ou reprodução de imagens. O processo técnico da gravura, com os instrumentos de gravação, os seus suportes materiais e as suas matérias aplicadas no suporte (ácidos, gomas, açucares, etc) determinam a diferença e a qualidade própria do objecto final impresso, diferente da criação com a grafite ou o pastel sobre papel ou do óleo sobre tela. Antes de ser  multiplicável a gravura é uma tecnologia separada de criação de imagens. Esta exposição que propõe associar edição e utopia pode ser uma oportunidade para enfrentar algumas questões.
 
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“Havia a ilusão nos anos 60, quando se começa a multiplicar, de que haveria uma democratização da arte, o que não é verdade” (citação, DN).
Vamos lá ver: democratização da arte havia mesmo (questão de multiplicação de originais – mas neste caso cada múltiplo é um original: “milagre” da gravura e da fotografia; e/ou questão de distribuição e acessibilidade, isto é, de preço).
A “ilusão” – que se perdeu logo na década de 50, ao tempo da criação da Cooperativa Gravura, em 1956 -, a ilusão neo-realista militante, era contar com que a democratização da arte fosse um caminho para democratizar o país; contar com que a arte para o povo fosse politicamente eficaz, num processo directo de causa a efeito, em que era essencial partir de imagens figurativas compreensíveis para a generalidade dos espectadores.
Mas multiplicar (produzindo estampas e fotografias, tal como editando livros, discos e cópias de filmes – e são multiplicações de diferente natureza: consulte-se o Gérard Genette sobre os regimes de imanência e de transcendência da obra de arte: o regime autográfico e o regime alográfico, a partir de Nelson Goodman – ver L’OEUVRE DE L’ART, Seuil, 1994-1997, 2 vol.) é de facto um acto de democratização.

Walter Benjamin é responsável por persistentes equívocos com a sua ideia da reprodutibilidade técnica e da correlativa perda da aura. “Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, a sua existência única, no lugar em que ela se encontra.” (…) “O conceito de aura permite resumir essas características: o que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é a sua aura. Esse processo é sintomático, e sua significação vai muito além da esfera da arte.”

No espaço entre a obra única (pintura, desenho) e o que decorre da reprodutibilidade técnica (a impressão tipográfica) existem os objectos (as criações artísticas) que são pelas suas condições materiais de produção ao mesmo tempo originais e múltiplos (não são reproduções): a escultura fundida em bronze é um caso exemplar, as estampas/obra gráfica estão na mesma situação, e as provas fotográficas de autor igualmente. (O linóleo, a litografia e a serigrafia não são gravuras mas são estampas/obras gráficas). A reprodução escolar do Benjamin tem tido efeitos muito perniciosos.

Alexandre Pomar

 

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