Animais sábios, animais de companhia… e tigres – Atelier-Museu Júlio Pomar 09.11.2019

“Antes do inicio e depois do fim: Júlio Pomar e Hugo Canoilas”
Curadoria de Sara Antónia Matos
Atelier Museu Júlio Pomar – 09.11.2019 / 01.03.2020

Esta exposição, que integrou obras de Hugo Canoilas, esculturas e telas, é uma aproximação ao bestiário de Júlio Pomar que dá prioridade ao desenho, e em especial ao desenho de observação, que o artista praticou quase sempre em situações de viagem e de férias. É o que sucede por exemplo com as folhas inéditas de cadernos de estudos datados de 1959, numa estadia em Aregos, Douro (os porcos, perus e tordos), ou com desenhos de 1963, quando parte para Paris e frequenta assiduamente o Jardin d’Acclimatation do Bosque de Bolonha e o Jardin des Plantes, antes de dispor de um estúdio próprio.

Noutros casos, a representação de animais (mosca, tartaruga, e também vários porcos) aparece em pequenas pinturas rápidas e despreocupadas, que se mantiveram no espaço doméstico ou foram oferecidas – mas refiram-se também as várias gravuras e depois as serigrafias (macacos  e touros, mais tarde tigres); duas cerâmicas de 1949-54; os cavalos (estudos desenhados e uma tapeçaria) que se associam às grandes tapeçarias realizadas em 1988 para a sede da CGD; os estudos de lagostas que prepararam um painel de azulejos (Alto do Lagoal); as águias de uma encomenda para o centenário do Benfica; o grande bode desenhado para acompanhar Bocage no Metropolitano de Lisboa; os gatos, cabras e javalis das ilustrações de 2006 para D. Quixote…

A organização da exposição optou pela representação singular dos animais, prescindindo da sua aparição como personagens de ficção ou como figuras em situação, muitas vezes alegóricas e humanizadas – com raras excepções, como as ilustrações litográficas para um Fabulário de 1958-62. Os “Animais Sábios” começaram por aparecer em pequenas esculturas de barro mostradas nas individuais de 1949 e 1950 (de que terá sobrevivido apenas um macaco, exposto), e continuaram por mais seis décadas, passando pelos companheiros de Ulisses transformados em porcos por Circe (1996) até aos burros que tocam viola (c. 2010). Percorrer o bestiário de Júlio Pomar ocuparia várias exposições ou vários volumes.  Poderia ter-se começado com o livro de desenhos, poemas e músicas editado em 1949 também por Sidónio Muralha e Francine Benoit: BICHOS, BICHINHOS E BICHAROCOS. Os desenhos perderam-se mas o livro faz aqui falta.  (A.P.)

Ver comentário abaixo “Um bestiário” e extractos de textos de Marcelin Pleynet e de Hellmut Wohl sobre os animais de Júlio Pomar)

Captura de ecrã 2020-03-26, às 16.52.43 c. 1953 e 1949

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O texto oficial: “A exposição Antes do Início e Depois do Fim: Júlio Pomar e Hugo Canoilas, com curadoria de Sara Antónia Matos, dá seguimento a um programa de exposições do Atelier-Museu que, todos os anos, procura cruzar a obra de Júlio Pomar com a de outros artistas, de modo a estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade. Deste modo, esta exposição é pensada, desde a sua génese, como uma intervenção específica no espaço do Atelier-Museu. Ao longo dos vários meses, a exposição sofrerá, ciclicamente, algumas metamorfoses/ transformações.

GERAL.jpg

Numa abordagem ficcional que procura pensar sobre o que já estava antes do início do mundo (humanidade) e o que ficará depois do fim do mundo (humanidade), problematizando a relação da arte com a ideia de extinção, biodiversidade e de coexistência planetária, a exposição mostra por um lado a enorme diversidade de animais que Júlio Pomar representou ao longo de mais de 70 anos na sua obra, em diferentes técnicas e suportes. Combinando arte, investigação e documentação, o trabalho de Júlio Pomar é enformado por um património crítico que lhe permite abordar a natureza descontraidamente, sem pretensões de apresentar um conhecimento moldado pelos pressupostos da ciência. Natureza, olhar científico e olhar artístico conjugam-se num discurso que ultrapassa as determinações disciplinares e garantem um resultado final revelável em diferentes camadas de informação.

Por outro lado, e em diálogo com a obra de Júlio Pomar, de Hugo Canoilas mostra-se um extenso corpo de trabalho que o artista tem desenvolvido nos últimos anos em torno de uma figuração por vezes pré-histórica ou pré-apocalíptica, e por vezes pós-apocalíptica, numa espectacular tentativa crítica de pensar sobre a sociedade, sobre a relação com a arte e com a natureza através da arte. ” (AMJP)

MACACO.jpgO macaco de ‘Quadrado Negro (Homenagem a Malevitch)’, 1953-2003, bronze, 9x38x38cm e tela de Hugo Canoilas

A loja do Atelier-Museu com posters, à esquerda, e serigrafias: Tigres, em cima um tourinho e uma porquinha

3 pensamentos sobre “Animais sábios, animais de companhia… e tigres – Atelier-Museu Júlio Pomar 09.11.2019

  1. Um bestiário

    Uma aproximação ao bestiário de Júlio Pomar: os animais sábios e os animais de companhia… e todos os outros
    JP chamou “Os Animais Sábios” a uma série de pequenas esculturas de barro que expôs nas mostras individuais de 1950 e 1951 (SNBA e Portugália, no Porto). Terá sobrevivido, pelo que se conhece, apenas um macaco que agora se expõe. Usou o mesmo título para desenhos mostrados na Galeria de Março em 1952, que agora não se localizam.
    Muito mais tarde arrumou um capítulo da sua obra gráfica sob a mesma designação “Animais Sábios” em antologias itinerantes desde 1998 (a par das secções Povo, Festa, Eros e Ficções) – aí incluiu, em gravuras e serigrafias, um touro (a obra mais antiga, de 1960), dois macacos, dois corvos, seis tigres, quatro macacos, quatro porcos e um gato músico…
    Por fim, na exposição antológica ‘Pomar – Autobiografia’ no Museu Berardo em Sintra, em 2004, comissariada por Marcelin Pleynet, apareceram os “Animais de Companhia”, com pinturas ‘dedicadas’ a um touro de 1960 (Col. Alves Redol no Museu do Neo-Realismo), três corridas de cavalos, três tigres, um camelo, três macacos e dois porcos, em telas de 1962 a 1996, e também obras de azulejo com gatos (dois, de 1995 e 2004) e em bronze (porco, lebre e tartaruga…, de 2003-04), fechando-se a secção com o quadro Arca de Noé, de 2003 (Col. Manuel de Brito). A representação de animais atravessa toda a obra do artista, e está presente em todas as disciplinas, das cerâmicas iniciais às assemblages e bronzes tardios.
    Os tigres ocupam uma das mais extensas séries da sua pintura, entre 1978 e 1982, e mostraram-se em duas exposições em Paris e Lisboa – na sua origem estiveram as ilustrações para um livro de contos de Jorge Luis Borges, onde aliás o tigre nunca é visto (Rose et Bleu, 1977, Ed. de la Différence). Antes tinha exposto as Tauromaquias e as Corridas de Cavalos (Courses) em Paris, na Galerie Lacloche, 1964 e 1965, onde, mais do que os animais, importavam o espectáculo visual, o movimento e a velocidade, a aparição momentânea da imagem, as forças abstractas em tensão, em choque ou em coirrida.
    Mas também nos anos 80 surgiram os Corvos, associados primeiro aos poetas de Lisboa desenhados para o Metropolitano (Estação Alto dos Moinhos) e logo ao poema The Raven de Edgar A. Poe e seus tradutores Mallarmé, Baudelaire e Pessoa (Le Livre des Quatre Corbeaux, 1985, Ed Différence e Gal. 111).
    São de referir também os quatro chimpanzés de 1993, em pintura e em serigrafia (Les 4 Singes), e a seguir a presença muito insistente dos porcos, que têm como origem as pinturas a propósito de Ulisses e em especial do episódio da Odisseia relativo às tentações de Circe, uma série exposta na Galerie Piltzer, Paris, 1996, com o título “Les méfaits du Tabac ou l’année du cochon”.
    A exposição actual (em parceria com obras de Hugo Canoilas) é uma aproximação ao bestiário de JP que dá prioridade ao desenho de observação, praticado quase sempre em situações de viagem e de férias. É o que se sucede com as folhas inéditas de cadernos de estudos datados de 1959, de uma estadia em Aregos, Douro, ou de 1963, quando se instala em Paris e frequenta assiduamente o Jardin d’Acclimatation du Bosque de Bolonha. Noutros casos, a representação de animais (mosca, tartaruga, também os porcos) aparece em pequenas obras rápidas e despreocupadas, que se mantiveram no espaço doméstico ou se ofereceram – mas refiram-se ainda os cavalos (estudos desenhados e tapeçaria) que se associam às grandes tapeçarias realizadas para a sede da CGD; os estudos de lagostas que prepararam um painel de azulejos, as águias resultantes de uma encomenda para o centenário do Benfica; os gatos, cabras e javalis das ilustrações de 2006 para Dom Quixote…
    Duas outras etapas do bestiário de Pomar, no seu início e no fim, são marcadas pelos livros “Bichos, Bichinhos e Bicharocos”, de 1949 (com poemas de Sidónio Muralha e músicas de Francine Benoit), onde aparecem em especial grilos e macacos, e pelo último livro ilustrado, “O cão que comia a chuva”, de Richard Zimler, de 2016 – por sinal o 1º e o último livro, e os únicos para crianças. Não se encontram expostos.
    A organização da exposição optou pela representação singular dos animais, prescindindo da sua aparição como personagens de ficção ou como figuras em situação, alegóricas e humanizadas – com raras excepções, como as ilustrações para um Fabulário de 1958-62. (A.P.)

  2. “Animais de companhia”, segundo Marcelin Pleynet, 2004
    “Animaux de compagnie”, selon Marcelin Pleynet
    “Company Animals”, Marcelin Pleynet

    “Poder-se-á falar de um bestiário de Júlio Pomar? Na sua obra, o animal ocupa de modo tão significativo um lugar entre o homem e o mito que não podemos deixar de constatar antes de mais as suas conotações antropomórficas explicita ou implicitamente sexuais. O tigre é aliás célebre por ter hábitos nocturnos.
    Podemos a esse propósito generalizar a ‘boutade’ de Flaubert (“Madame Bovary sou eu”). Cada um desses animais é também uma figura de Júlio Pomar e da sua arte. Nesse sentido, são tutelares, o artista está sob a sua protecção: eles mascaram-no e revelam-no nas suas máscaras… À sua maneira inscrevem na tela uma das fronteiras do vivo da vida… Visão e paródia, de si próprio e de uma humanidade que corre sempre o risco de ser menos que animal.
    Nobres e selvagens e perigosos, tão fascinantes como perigosos, “o tigre”, “a tigreza” ou, nobremente ligado à origem dos tempos ditos primeiros ou primitivos, “o macaco” (a belíssima terracota, “Macaco”, de 1949, col. António Prates), ou ainda, no seu furor físico, cego e debatendo-se sob as bandarilhas, o “touro” (…)

    Os animais dos anos noventa parecem já mais ligados ao mundo da arte. Refiro-me nomeadamente ao “Chimpanzé com funil e tesoura” (1993), ao “Chimpanzé com compasso” (1993) e, mais explícito ainda, ao “Porco sentado no bar com leque” (1995-1996), à encantadora “Fumadora em malva / Fumeuse mauve” (1995-1996) – também se pode amar uma porca –, ao manguito que o porco de “Mostrador / Cadran” (1995-1996) faz ao tempo. Jogo com o tempo que, muito recentemente, os dois bronzes da fábula “A lebre e a tartaruga” (2002) parecem confirmar.

    Os animais tutelares de Júlio Pomar marcam ironicamente a boa distância a manter entre o verdadeiro, o semelhante e o verosímil, na ordem de uma história, de uma biografia pintada que tem em conta – e assim se identifica com – as fintas da ironia e as farsas da fábula.” (In catálogo “Pomar – Autobiografia”, Sintra Museu de Arte Moderna – Museu Berardo, 2004)

    #

    “Peut-on parler d’un bestiaire de Júlio Pomar ? Dans son oeuvre, l’animal occupe trop significativement une place entre l’homme et le mythe, pour qu’on ne retienne pas d’abord ses connotations anthropomorphiques explicitement où implicitement sexuelles. Le tigre n’est-il pas célèbre pour ses moeurs nocturnes ?

    On peut à ce propos généraliser la boutade de Flaubert ( “Madame Bovary c’est moi”), chacun de ces animaux est aussi une figure de Júlio Pomar et de son art. En ce sens ils sont tutélaires, l’artiste se tient sous leur protection : ils le masquent comme ils le révèlent dans ses masques… à leur façon ils inscrivent sur la toile une des frontières du vivant de la vie… Vision et charge, de soi-même et d’une humanité qui court toujours le risque d’être moins qu’animale.

    Nobles et sauvages et dangereux , fascinants, non moins que dangereux “le tigre” , “la tigresse” – ou noblement lié a l’origine des temps que l’on dit premiers ou primitifs ,”le macaque” ( la très belle terre cuite, Macaco , de 1949) – ou encore, dans sa fureur physique, aveugle et se débattant sous les banderilles, le taureau (Touro , 1960) – ou encore, dans l’arène, la scène du monde, et la scène de la peinture, (Tourada à corda , 1992).

    Les animaux des années quatre-vingt-dix, eux, semblent plus explicitement liés au monde de l’art. Je pense notamment au Chimpanzé à l’entonnoir et aux Ciseaux (1993), au Chimpanzé au compas (1993) , plus explicite encore le Cochon assis au bar à l’éventail (1995-1996), à la charmante Fumeuse mauve (1995-1996) – on peut aussi aimer une cochonne -, à la nique que le cochon du Cadran (1995-1996) fait au temps. Jeu sur le temps que, très récemment, les deux bronzes de la fable Le Lièvre et la tortue (2002) semblent confirmer.

    Les animaux tutélaires de Júlio Pomar marquent ironiquement la bonne distance à tenir entre le vrai, le semblant et le vraisemblant, dans l’ordre d’une histoire, d’une biographie peinte qui tient compte, et aussi bien s’identifie aux feintes de l’ironie, et aux farces de la fable.”

    #

    Company Animals
    (…)
    Can we speak of a Julio Pomar bestiary? In his works, the animal occupies a highly significant place between man and myth, and we cannot fail to observe their explicitly anthromorphique or implicitly sexual connotations. Is the tiger not well known for its nocturnal habits?

    We can give a wider meaning to the witticism of Flaubert
    ( “Madame Bovary c’est moi”), each of these animals is also a face of Júlio Pomar and of his art. In this sense they are guardians, the artist is under their protection ; the mask him, and reveal him under his masks … in their way they inscribe on the canvas one of the frontiers of the vitality of life … Vision and parody, of himself and of a humanity that always runs the risk of being less than animal.
    Noble, savage and dangerous, but also fascinating, “the tiger ” , “the tigress” – or associated with the origins of the time we call early or primitive, “the monkey” (the beautiful terra-cotta, Macaco, 1949) – or in his physical fury, blind and enraged under the banderillas, the bull (Touro 196O) – or once again, in the arena, the world’s stage and the scene of the painting : Tourada à corda (1992?) .

    The animals of the nineties, seem more linked to the world of art. I am thinking particularly of Chimpanzé à l’entonnoir et aux Ciseaux ( 1993) – of Chimpanzé au compas ( 1993) – more explicitly again of Cochon assis au bar à l’éventail (1995-1996) and the charming Fumeuse mauve (1995-1996)… one can also love a sow) – and the way the pig in Cadran (1995-1996) thumbs it nose at time. A play on time confirmed by the two bronzes of the fable The Tortoise and the Hare (2002).

    Julio Pomar‘s guardian animals ironically mark the correct distance to be kept between what is true, what is make believe and what is plausible , in the order of a story, or a painted biography that comprises and also identifies with the ruses of irony and the farce of fable.”

  3. O Bestiário, segundo Hellmut Wohl (extracto do prefácio do catálogo de Júlio Pomar – A Comédia Humana, Centro Cultural de Belém, 2004)

    Entre os pintores modernos, Júlio Pomar é um dos poucos — como Balthus e Paula Rego — cujo tema principal é a figura, mas não apenas a figura humana. O seu repertório figurativo inclui aquilo a que chamou o «bestiário pessoal»: o porco, o macaco, o tigre, o corvo, o elefante, a girafa, o veado, a tartaruga, o touro, o gato, o cavalo, o cão, o lobo, a cabra e o bode, a gaivota e a mosca. O bestiário de Pomar é semelhante ao dos poemas de Alexandre O’Neill, que, como António Tabucchi sublinhou, é povoado – como os quadros, desenhos e esculturas de Pomar – não por criaturas mitológicas ou fantásticas como os faunos ou os grifos, mas por animais que encontramos no mundo de todos os dias: macacos, gatos, cães e insectos . A pintura de Pomar de uma “Mosca”, tem o seu equivalente no poema de Alexandre O’Neill:
    Onde já vi esta mosca?
    Mas em toda a parte, filha,
    Desde o bolo de noivado
    À minha tépida virilha. 1

    «A enigmática presença dos animais», disse Pomar acerca do seu bestiário, «desperta em nós tudo o que projectamos na sua imagem» 2. É essa a razão da popularidade das histórias em que os animais são protagonistas, desde as fábulas da antiguidade clássica até às histórias de Charles Perrault e La Fontaine, às gravuras de Grandville e aos poemas de Marianne Moore. Os membros do bestiário de Pomar pelos quais o artista nutre um especial afecto são o tigre, o macaco, a tartaruga e o porco.

    O tigre entrou no bestiário de Pomar quando Joaquim Vital o convidou para ilustrar a edição de La Différence de uma tradução francesa da novela “Tigres Azules”, de Jorge Luís Borges, a história de um tigre que nunca ninguém viu e de que se sabe a existência apenas pela descoberta diária das suas pegadas. «Um famoso poema de Blake», escreve Borges no início da sua história, «pinta o tigre como um fogo intenso e um arquétipo eterno do Mal.
    (Tiger, tiger, burning bright
    In the forest of the night
    What immortal hand or eye
    Could frame thy fearful symmetry) 3
    Pessoalmente, prefiro a máxima de G. K. Chesterton, que descreve o tigre como um símbolo de terrível elegância». Pomar afirma que ficou «tão seduzido por aquela espécie felina, que ela acabou por ocupar um lugar de escolha no meu bestiário pessoal» 4 . Na maior parte dos quadros inspirados pela história de Borges, o tigre, em posição frontal ou de perfil, é o tema principal. E também conseguiu entrar sub-repticiamente na composição de “Sadarnapalo” – o título é uma alusão à “Morte de Sadarnapalo”, de Delacroix, que está no Louvre, no qual o sátrapa, no seu leito de morte sobre a pira funerária, manda os eunucos matar as suas concubinas, o seu cavalo favorito e os seus outros bens mais preciosos. Embora entre eles não esteja incluído um tigre, no “Sadarnapalo” de Pomar uma figura feminina que se vê de costas, um eco da concubina em primeiro plano no quadro de Delacroix, está sentada sobre um tigre, também visto de costas; e o perfil parcial da cabeça de um tigre espreita por debaixo do chapéu de uma mulher no canto superior direito.

    O macaco deve a sua presença na obra de Pomar não a uma fonte literária, mas sim à velha associação do macaco ao artista enquanto “macaco de imitação” da natureza. Um macaco surge inesperadamente a um canto da escultura “Quadrado Preto”. A forma quadrada desta obra e a sua cor preta são uma homenagem ao “Quadrado Preto” de Malevitch, de 1915, que se encontra na Galeria Estatal Tretyakov de Moscovo. O quadro de Malevitch é a tela mais minimal e mais reduzida que o artista produziu. Representava para ele uma síntese dinâmica de todo o seu percurso pictórico anterior, que podia ser novamente fragmentado para produzir configurações pictóricas nunca imaginadas até então. Acerca da superfície do quadro, escreveu Malevitch: “Qualquer superfície pictural é mais viva do que uma face humana… a superfície vive, nasceu. É a face da nova arte.” 5
    O macaco na superfície do quadrado preto de Pomar é uma alusão irónica ao macaco artista? À luz do seu quadro Chimpanzé com uma tesoura e um limão, que julgo ser um auto-retrato irónico, suspeito que é isso mesmo.
    Embora os macacos só tenham sido representados pela primeira vez como artistas no século xvii, por David Teniers II e outros pintores flamengos, a associação do macaco ao artista enquanto imitador da natureza vem já da antiguidade clássica. Os antigos usavam o epíteto «macaco» como sinónimo de imitador, mas também para designar um impostor e um aldrabão. No século xiv, Boccaccio contou a história de Epimeteu, que ao fazer uma estátua de barro de uma figura humana provocou uma tal ira em Júpiter que este transformou o artista num macaco e baniu-o para as ilhas Pitecusa, por terem sido em tempos habitadas por «gente engenhosa (isto é, macacos) que imitavam a natureza nos seus trabalhos». O primeiro artista a quem chamaram o macaco de imitação da natureza (simia naturæ) foi o pintor do século XIV (catorze) , Stefano, um discípulo de Giotto. A imagem mais conhecida do macaco enquanto artista na arte ocidental é “O Macaco Pintor”, de Chardin, que se encontra no Louvre. Concebida como uma sátira pictórica à actividade dos antiquários, mostra o macaco pintor a copiar uma antiga estátua mutilada de um querubim em cuja imagem na tela pôs uma cabeça de macaco.

    Em 1998, Pomar fez três desenhos de uma tartaruga rabugenta a empurrar um carrinho de bebé com uma criança brincalhona e irrequieta (“mARTEnidade”); e mandou-me pelo Ano Novo de 2002 um desenho de uma tartaruga a andar numa motoreta de criança. Foram estas imagens que primeiro me deram a ideia de centrar a exposição que Margarida Veiga me tinha convidado a organizar no humor e no nonsense. Quando, em Maio de 2003, fui à fundição em Paris onde Pomar manda fundir as suas esculturas, reparei que existia uma relação entre o desenho que me tinha mandado e a escultura “Tartaruga”, na qual uma tartaruga está sentada numa trotineta, com uma esfera de vidro na mão esquerda, uma pata calçada com uma bota preta tentando equilibrar o guiador do seu frágil e instável veículo e a outra pata sobre um guarda-chuva fechado. A obra é ricas em associações. O guarda-chuva tem sido uma imagem codificada desde o tempo em que os surrealistas se apropriaram da declaração de Lautréamont em “Os Cantos de Maldoror”: «Belo como o encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma mesa de dissecação» como texto de fundo para os seus arbitrários e inesperados deslocamentos e justaposições de imagens e objectos incongruentes. Em “Tartaruga”, Pomar adoptou essa mesma estratégia surrealista. Mas “Tartaruga” é mais do que uma imagem surrealista. É também uma reencarnação de Monsieur Hulot na sua bicicleta, do filme de Jacques Tati “As Férias do Sr. Hulot”.

    O afecto que Pomar tem pelo porco assumiu várias formas. Durante umas férias em Castellina in Chianti, no Verão de 1992 — que no calendário chinês foi o ano do porco — o artista iniciou uma série de telas a que deu o título “L’Année du Cochon” (O Ano do Porco) : “Vários acontecimentos se sobrepuseram. Primeiro, a minha velha atracção pelo bicho… Nessa época, eu fumava dois ou três maços por dia e deu-me para enfeitar as minhas personagens mitológicas com cigarros, que lhes punha entre os dedos ou ao canto da boca. Assim, tive que fazer entrar Os Malefícios do Tabaco no Ano do Porco.” 6
    Três anos mais tarde, esta amálgama de temas resultou em “Circé à la toupie” (Circe com um pião) e em “Cochon assis au bar à l’éventail” (Porco sentado no bar com leque).

    (…)

    Pomar também fez pinturas, colagens e litografias de “The Raven” (O Corvo), entre as quais, a tela com o título do refrão do poema de Poe, “Nevermore”. É um quadro que vai até ao âmago do poema. Poe foi o primeiro dos poetas modernos a pôr o problema do efeito que um texto deverá provocar no leitor. Na sua “Filosofia da Composição”, desenvolveu a tese de que a contemplação de qualquer tipo de beleza leva invariavelmente às lágrimas, que a melancolia é a forma mais legítima de poesia e que o que melhor produziria o efeito desejado seria o refrão, de preferência, uma única palavra no fim de cada estrofe. A palavra que escolheu para “The Raven”, devido ao seu tom conclusivo de fatalidade, foi «Nevermore» («jamais plus» nas traduções de Baudelaire e Mallarmé, «nunca mais» na de Pessoa). Poe não queria um refrão falado por uma voz humana. Em vez disso, escolheu um animal capaz de falar, tarefa a que o corvo, portador de maus augúrios, se adequou admiravelmente. Para Pomar e Pessoa, no entanto, o corvo é também uma imagem que faz parte do brasão da cidade de Lisboa. O pintor recorda que a tradução de Pessoa de “The Raven” “foi dos primeiros versos que li de Pessoa” 7. O corvo que nas armas de Lisboa figura, notemos a coincidência.
    Ninguém escreveu melhor sobre o papel do corvo na iconografia de Lisboa do que José Cardoso Pires: “São Vicente, está provado, entrou no Tejo em cadáver navegante sob a guarda de dois corvos… Os corvos, depois duma viagem tão vigilante, mal se apanharam em terra puseram-se aos pulinhos para desentorpecer e, metendo por becos e travessas, entraram logo em convivência… Mas, embora com um ou outro desvio para espairecer, nos bairros da capital é que os corvos faziam vida. Pátio do Corvo, em São Vicente de Fora, Rua dos Corvos, às Escadinhas de Santo Estêvão, Terreiro do Corvo, na Sé. É um lendário de Lisboa.” 8
    Para Poe, o corvo é um dispositivo poético concebido para produzir um efeito específico no leitor. Para Pomar e Pessoa, o corvo é também o emblema de Lisboa.

    1 Alexandre O’Neill, Tomailà do O’Neill! uma Antologia, ed. A. Tabucchi, Lisboa, 1986, p. 13.
    2 Então e a Pintura?, ed. Dom Quixote, 2002, p. 84.
    3 Tigre,Tigre, fogo intenso / Na floresta, negro denso / Que mão ou olho imortal / Fez tua simetria feral
    (N.T.: Tradução livre)
    4 Então e a Pintura?, idem.
    5 Palavras de Malevitch in John Golding, Paths to the Absolute, Londres, 2000, p. 62.
    6 Então e a Pintura? , pp. 92-93.
    7 Um ano de desenho: quatro poetas no metropolitano de Lisboa, sem número de página.
    8 José Cardoso Pires, Lisboa, Livro de Bordo, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1997, pp. 23-24.

    Todas as obras referidas encontram-se reproduzidas no catálogo.

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